Este blog tem por finalidade, homenagear consagrados poetas e escritores e, os notáveis poetas da internet.
A todos nosso carinho e admiração.

Clube de Poetas









quinta-feira, 2 de outubro de 2014

LUIZ MANZOLILLO



LUIZ MANZOLILLO
(1930 - 2007)
 
O escritor Luiz (José Henrique Scala) Manzolillo, nasceu na cidade do Rio de Janeiro aos 26 de junho de 1930 e faleceu em Brasília aos 28 de março de 2007. Era filho do comerciante Antônio Manzolillo e da renomada artista plástica Paola Scala Manzolillo.
Luiz Manzalillo foi o primeiro presidente do PSB no Distrito Federal, tendo sido o principal incentivador da carreira política do deputado Rodrigo Rollemberg. Outro político de sua relação de amizade foi Sebastião Abreu, antigo companheiro de militância. Dentre seus amigos escritores, contava sempre com as presenças marcantes dos poetas João Carlos Taveira, José Santiago Naud e Newton Rossi. Em todas as carreiras que desenvolveu, no Banco Central, nos esportes, no jornalismo e na política, Manzolillo era figura popular.
Escreveu 22 livros, que vão do ensaio ao romance, passando pelo conto, pela novela e pela poesia. Dentre eles, destacam-se Pão de Barro, Cultura - Um Salto na Era Cibernética, Sonetos de Outono e  A Barca de Ceres (Prêmio Afonso Arinos de Literatura da Academia Brasileira de Letras, em 1991).




Em 2006, Monzilillo perdeu seu único filho homem, Mássimo Manzolillo, conhecido jornalista em Brasília e também cronista do Jornal do Brasil. A morte prematura do filho abalou profundamente o seu ânimo e contribuiu sensivelmente para o enfraquecimento de sua saúde, pois já havia sofrido um infarto do qual se recuperava.
"Manzolillo era um escritor fecundo e, em matéria de política, perseguia com alegria a utopia do socialismo" - Sebastião Abreu
"Luiz Manzolillo era, em síntese, um ser ecumênico que transbordava otimismo na lavratura das palavras. A literatura para ele era como o ar que respiramos" - João Carlos Taveira.
"Sinceramente reconhecido a Luiz Manzolillo por ve-lo exercer a arte como serviço e usar a inteligência como instrumento de beleza, multiplicação da liberdade e fundação do homem solidário" - Santiago Naud
"Luiz Manzolillo é um escritor multímodo. Estreou com um ensaio sobre a estrutura do futebol brasileiro, que incluia prpostas de nova organização e novas regras" - Anderson Braga Horta.
 


TIMIDEZ
 
Memória de um passado revolvido,
Relembro fugazmente o amor tão caro,
Tão viçoso, tão cândido, tão raro,
Em seus transportes, que hoje só bendigo
A inspiração veraz das rimas claras,
Que a insopitada timidez, ferida,
Perpetua no incógnito jazigo
Do coração patético, no avaro
Arquivo imemorial da noite insone,
Povoada de angústia e de esperança,
Penares loucos, raios de um ciclone,
Tormentoso ciclone, amor perdido,
Deixando sulcos de desesperança,
Mas o consolo real - te-lo vivido.
 
** ** **
 
ESQUECIDO SONETO
 
Ó minha mãe, perdoa-me, se um dia
Teus olhos claros marejei de pranto,
Irreverente, resurando o encanto
Do rosto transtornado em agonia!
 
Em verdade, soubesse que feria,
No meu adolescente vezo, tanto,
As mágoas que causei, o desencanto,
Em dádivas de amor transformaria.
 
Modelo és sempre o meu de exaltação;
A tua luta, alfombra acolhedora,
A arte que pintaste, inspiração!
 
Se a vida é traço forte debuxado,
Debuxos teus serão, por certo, os louros
Que colherei em versos e baladas.
 


Fontes de Pesquisa:


Eliana (Shir) Ellinger

sábado, 2 de agosto de 2014

ABGAR RENAULT


ABGAR RENAULT
(1901 - 1995)
 
 
Abgar de Castro Araújo Renault foi um professor, educador, político, poeta, ensaista e tradutor brasileiro. Ocupou a cadeira 12 da Academia Brasileira de Letras e a cadeira 3 da Academia Brasileira de Filologia.
Filho de Leon Renault e de Maria José de Castro Araújo Renault, casou-se com D. Ignez Caldeira Brant Renault, com quem teve três filhos, Caio Márcio, Carlos Alberto e Luiz Roberto e deles três netos, Caio Mário, Abgar e Flávio, e uma bisneta, Ignez.
Sua formação escolar foi em Belo Horizonte, onde começou a exercer o magistério. Foi professor no Ginásio Mineiro de Belo Horizonte e na Universidade Federal de Minas Gerais.
Posteriormente, mudou-se para o Rio de Janeiro e deu aulas no Colégio Pedro II e na Universidade do Distrito Federal.
Foi eleito deputado estadual por Minas Gerais e exerceu o cargo de direção do Colégio Universitário da Universidade do Brasil e no Departamento Nacional de Educação.
Foi ainda secretário da Educação do Estado de Minas Gerais em dois governos, quando se notabilizou por incentivar o ensino no meio rural. Foi também Ministro de Educação e Cultura no governo de Nereu Ramos e ministro no Tribunal de Contas da União e dirigiu o Centro Regional de Pesquisas Educacionais João Pinheiro em Belo Horizonte.
No período de 1956 a 1959, foi membro da Comissão Internacional do Curriculum Secundário da Unesco. Em 1963 atuou como consultor da Unesco na conferência sobre Necessidades Educacionais da África em Adid Abeba.


Abgar Renault representou o Brasil em numerosas conferências sobre educação, em Londres, Genebra, Paris, Teerã, Belgrado e Santiago do Chile. Por várias vezes foi eleito membro da Redação Final dos documentos dessas reuniões.
Como professor, sempre ligado à educação e preocupar-se com a língua protuguesa, de que foi um conhecedor exímio e representante fiel, foi nomeado Professor Emérito da Universidade Federal de Minas Gerais.


Abgar Renault registrou todos os seus estudos e reflexões em A Palavra e a Ação (1952) e em Missões da Universidade (1955). Além do que, foi grande poeta fazendo parte do grupo surrealista moderno e partipou do movimento modernista de Minas Gerais, sempre com dedicação à literatura contemporânea. Apesar de ter sua obra associada ao Modernismo, escrevia uma poesia original, não ligada a nenhuma escola poética. Suas poesias tem sido incluidas em antologias no Brasil e exterior.
Em 31 de dezembro de 1995, Abgar Renault faleceu no Rio de Janeiro, aos 94 anos de idade.
ALEGORIA
 
Em vão busco acender um diálogo contigo:
a alma sem tom da tua boca de água e vento
despede cinza, névoa e tempo no que digo,
devolve ao chão o meu mais longo pensamento.
 
E entre cactos estira esse deserto ambíguo
que vem da tua altura ao vale onde me ausento,
procurando o teu verbo. O silêncio, investigo-o
e ouço o naufrágio, o vácuo e o desaparecimento.
 
Sonho: desces a mim de um céu de algas e rosas,
falas às minhas mãos vozes vertiginosas
e palavras de flor no teu cabelo enastro.
 
Desperto: pairas ainda em silêncio e infinita:
meu ser horizontal chora treva e medita
tua distância, teu fulgor, teu ritmo de astro.
 
******
 
ENCANTAMENTO
 
Ante o deslumbramento do teu vulto
sou ferido de atônita surpresa
e vejo que uma auréola de beleza
dissolve em lua a treva em que me oculto.
 
Estás em cada reza do meu culto,
sonhas na minha lânguida tristeza
e, disperso por toda natureza,
paira o deslumbramento do teu vulto.
 
É tua vida a minha própria vida,
e trago em mim tua alma adormecida...
Mas, num mistério surdo que me assombra.
 
Tu és, às minhas mãos, fluida, fugace,
como um sonho que nunca se sonhasse
ou como a sombra vã de uma outra sombra.
 
******
 
SONETO IMPOSSÍVEL
 
Não ouvirás nem luz, nem sombra inquieta
das sílabas que beijam tuas asas,
nem  a curva em que morre a ardente seta,
nem tanta eternidade em horas rasas.
 
Não medirás a bêbeda aorola
que abriste no final do meu sorriso,
nem tocarás o mel que canta e rola
na insônia sem estradas onde piso.
 
Não saberás o céu construido a fogo,
que tua jovem chave cerra e empena,
nem os braços de espuma em que me afogo.
 
Não verão os teus olhos quotidiana
a minha morte de homem embebida
no flanco de ouro e luar da tua vida.
 

Fontes de pesquisa:
 


Eliana Ellinger (Shir)
 

GEIR NUFFER CAMPOS


GEIR NUFFER CAMPOS
(1924 - 1999)
 
 
Geir Nuffer Campos, poeta, escritor, jornalista, contista e tradutor, nasceu em São José do Calçado. Filho de Getúlio Campos, dentista, e Nair Nuffer, professora, viveu parte de sua infância em Campos (RJ) e a partir de 1941, passou a residir em Niterói. Estudou no Colégio Pedro II e  Colégio Plínio Leite.
Em 1951, casou-se com Alcina Lima Campos e deste casamento vieram dois filhos: Carlos Augusto Campos e Mauro Campos.
Tripulou navios mercantes do Loyd Brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), advindo daí sua condição de ex-combatente.
Como poeta, estreou em 1950 com "Rosa dos Rumos", após ter publicado em jornais e revistas, especialmente no Diário Carioca, vários poemas e traduções.

    



Fundou em 1951, junto a Thiago de Mello, as Edições Hipocampo, com a publicação de vinte livros de poesia e prosa, dos autores mais representativos da literatura brasileira e também de alguns estreantes como Paulo Mendes Campos, entre outros; nesta coleção, apareceu em janeiro de 1952, "Arquipélago", seu segundo livro de versos.
Geir Campos foi também professor ginasial no Colégio Plínio Leite e no Colégio Figueiredo Costa, ambos em Niterói, professor universitário na Escola de Comunicação da UFRJ, onde em 1980 fez-se Mestre em Comunicação, com um trabalho publiacado sobre Tradução e Ruido na comunicação teatral.
Começou, em agosto de 1954 a trabalhar como radialista, produzindo e apresentando na Rádio Ministério da Educação, um programa semanal de meia hora, "Poesia Viva" e diversos programas literários.
Geir é o autor da letra do Hino de Brasília, cuja música é da professora Neuza Pinho França Almeida. Foi membro fundador do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro e da Associação Brasileira de Tradutores, da qual foi presidente, lutando pela coinscientização dos que traduzem profissionalmente no Brasil e pela regulamentação dessa profissão.
Destacou-se como ativista cultural de grande influência e presença na literatura brasileira, tornando-se grande representante capixaba da "Geração de 45".
Geir Campos é considerado um dos poucos poetas brasileiros a comporem uma coroa de sonetos.


 TAREFA
 
Morder o fruto amargo não é cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros o quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros o quanto é falso,
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
- do amargo e injusto e falso por mudar -
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.
 
** ** **
 
VIGILIA 
 
Não, meu amigo, não precisas ter
nenhum cuidado: havendo o que cuidar,
cuidarei eu constantemente a te poupar
coisas que vão teu coito arrefecer.
 
Coitado de quem deixa a noite ser
vinda fora de tempo e lugar
sombreando as alturas do prazer
com rasteiras tribulações do lar.
 
Antes que venha a noite, vai o dia
mostrando os horizontes de alegria
que tem a partilhar no corpo dela:
 
São costas, são gargantas, são colinas
- toda uma geografia em que te empinas -
enquanto pelo teu amor vela.
 
** ** **
 
POÉTICA
 
Eu quisera ser claro de tal forma
que ao dizer
          - rosa!
todos soubessem o que haviam de pensar.
 
Mais: quisera ser claro de tal forma
que ao dizer
     - já!
todos soubessem o que haviam de fazer.



Eliana Ellinger (Shir)

terça-feira, 3 de junho de 2014

LAURINDO RABELO


LAURINDO RABELO
(1826 - 1864)
 
 
 
 
Laurindo José da Silva Rabelo, médico, professor e poeta, nasceu no Rio de Janeiro, em 08 de julho de 1826, e faleceu na mesma cidade, em 28 de setembro de 1864. É  patrono da Cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras, por escolha do fundador Guimarães Passos.
Era filho do oficial de milícias Ricardo José da Silva Rabelo e de Luiza Maria da Conceição, ambos mestiços e gente humilde do povo carioca. Cresceu nas maiores privações, das quais só veio a se libertar nos últimos anos de sua vida.
Pretendendo seguir a carreira  eclesiástica, cursou as aulas do Seminário São José e recebeu as ordens, mas abandonou o seminário por intrigas de colegas.
Fez estudos na Escola Militar, outra vez tentando em vão seguir carreira. Ingressou no curso de medicina, concluindo-o na Bahia em 1856. Em 1857, ingressou como oficial-médico no Corpo de Saúde do Exército, servindo no Rio Grande do Sul, até 1860.
Neste ano casou-se  com D. Adelaide Luiza Cordeiro, e só a partir de então pode livrar-se da pobreza que marcou sua existência. De volta so Rio de Janeiro, lecionou as disciplinas de História, Geografia e Português no curso preparatório da Escola Militar.
Caracterizou-o, desde os anos de estudante, a maneira espontânea e desengonçada de viver. Por sua compleição física e bizarra, a imaginação popular deu-lhe o apelido de "poeta-lagartixa". Viveu na boemia, um ambiente que o estimulava literariamente.
 




 Como poeta satírico, era justamente temido e respeitado. Teve amigos e também inimigos acérrimos, por causa desta feição de seu talento, chegando a ser perseguido.
Como repentista e improvisador, era popular e bem recebido em todos os salões. Fechavam os olhos à sua indumentária desleixada, só para ouvir o poeta e ver as cintilações de seu espírito. Em muitas de suas composições vibra a nota de melancolia, pois também pertencia ao período romântico.
Atacado por uma afecção cardíaca, Laurindo Rabelo faleceu aos 38 aos de idade.

ANGÚSTIA
 
Quando morta a felicidade,
A fé expira também !
Saudades de que se nutrem?
Os suspiros, que alvo têm?
 
Morta a fé, vai-se a esperança;
Como pois, viver pudera
Saudade que não tem crança,
Saudade que desespera?
 
Onde as graças do passado,
Se altivo gênio sanhudo
O cepticismo nos brada.
Foi mentira, engano tudo?
 
Em nada creio do mundo:
Ludíbrio da desventura,
A felicidade me acena
Só de um ponto - a sepultura.
 
Morreram minhas saudades,
E nem suspiros calados
Dentro d'alma pouco a pouco
Vão morrendo sufocados.
 
** ** **
 
BEIJO DE AMOR
 
Se me queres ver ainda,
Recobra da vida a flor:
Deixa remoçar-me a vida
Um beijo do teu amor.
 
De minha vida a ventura
Teus lábios guardam consigo,
Dá-me um só beijo e verás
Se é mentira o que eu te digo.
 
Como a flor, do sol a um beijo,
Se quiseres, podes ver.
A minh'alma semimorta,
Num teu beijo reviver.
 
Só esperá-lo me alenta ,
Me conforta o fado meu;
Imagina só por isso
Quanto pode um beijo teu.
 
** ** **
 
AS ROSAS DO CUME
 
No cume daquela serra
Eu plantei uma roseira.
Quanto mais as rosas brotavam,
Tanto mais o cume cheira.
 
À tarde, quando o sol posto,
E o cume o vento adeja,
Vem travessa borboleta
e as rosas do cume beija.
 
Nos tempos das invernadas,
Que as plantas do cume levam,
Quanto mais molhadas eram,
Tanto mais no cume davam.
 
Mas se as águas vêm correntes,
E o sujo do cume limpam,
Os botões do cume abrem,
As rosas do cume grimpam.
 
Tenho pois, certeza agora
Que no tempo de tal rega,
Arbusto por mais cheiroso
Plantado no cume pega.
 
Ah! Porém o sol brilhante
Logo seca a cataduba,
O calor que a terra abrasa
As águas do cume chupa. 



Eliana (Shir) Ellinger
 
Fontes de pesquisa:
 

DORA FERREIRA DA SILVA


DORA FERREIRA DA SILVA
( 1918 - 2006 )
Dora Ferreira da Silva nasceu dia 1º de julho de 1918, na cidade paulista de Conchas, e faleceu em São paulo em 2006.
A vocação poética surgiu na infância, através de leituras na biblioteca de poesia de seu pai, Theodomiro Ribeiro, que faleceu quando Dora tinha um ano de idade. Com dois anos, mudou-se com a família para a Capital do Estado, onde mais tarde estudou no Instituto de Educação, da então recente Universidade de São Paulo.
Casou-se aos 19 anos com o filósofo Vicente Ferreira da Silva, com quem viveu por 23 anos não apenas uma história de amor e admiração, mas também uma intensa e fecunda parceria intelectual. Ao lado do marido, relacionou-se com intelectuais do mundo inteiro, como Agostinho da Silva, Eudoro de Souza e Ernesto Grassi, assim como Guimarães Rosa e Oswald de Andrede, que frequentavam a casa da rua José Clemente, referência cultural na cidade de São Paulo.
Em 1955, o casal fundou, ao lado de Milton Vargas, a revista "Diálogo", interrompida em sua décima sexta  edição pela morte prematura de Vicente num acidente de carro. Dois anos depois, com a colaboração de Vilém Flusser e Anatol Rosenfeld, Dora lançou a revista "Cavalo Azul", voltada especialmente à poesia e à literatura. Dora publicou sistematicamente artigos, traduções e poemas nas duas revistas.
Entre as atividades docentes, lecionou História e Arte na EAD e História das Religiões na Faculdade Tereza Martin. Ao longo de sua vida reuniu e orientou vários grupos de alunos que estudavam principalmente psicologia, mitologia e poesia. A criação do Centro de Estudos Cavalo Azul, em 2003, incorporou outros professores e poetas, como Rodrigo Petrônio e Cláudio Willer, que integravam o último grupo de estudos de Dora, ainda em atividade.

                                       



A poesia foi a vivência, paixão e prática de toda sua vida. A primeira publicação em livro foi em 1970, com a coletânea "Andanças", que reuniu a poesia produzida a partir de 1948. Publicou depois outros dez volumes, além de traduções, artigos e ensaios. Recebeu três prêmios Jabuti pelos livros "Andanças", "Poemas da Estrangeira"  e "Hídras", a Menção honrosa PEN CENTRE por "Talhamar" e o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pela publicação da "Poesia Reunida", em 2000.
Integrou a comissão responsável pela publicação da obra completa de Carl Gustav Jung em português, da qual foi responsável por várias traduções, além do clássico "Memórias, Sonhos,
 Reflexões".


                              

Em 2006, aos 87 anos, Dora preparava-se para lançar mais um livro. Estava em plena atividade, trabalhando em três séries de poemas:  "Appassionata", "O Leque" e "Transpoemas", esta última em um mergulho na fonte originária da poesia, que  não concluiu pois veio a falecer.
Seu acervo documental e bibliográfico foi incorporado ao Instituto Moreira Salles, onde, depois de catalogado, está disponobilizado para pesquisa e divulgação, figurando ao lado de nomes como Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Rachel de Queiroz, dentre muitos outros escritores brasileiros.


 CÂNTICOS
Tenho-te um amor de mansidões
rebanho lento e branco passeando na alvorada
tenho-te um amor tranquilo e trêmulo
não se música ou se constelações.
Tenho-te um amor de eternidades
em vagas renascentes - brando som de flauta
chamando as superfícies distraídas
para a reconcentração definitiva.
II
Como um ramo de úmidas rosas
quisera estar na sala em que respiras
o aroma de tuas primaveras.
Como um cesto de frutos derramados
quisera ser a oferta abandonada
na mesa simples da tua eternidade.
** ** **
AO SOL
Naufragas na noite
em pompas de luz e imensidade
todo germe palpita na semente
e da nova manhã ressurges
clara divindade
nua a carnação sob o manto escarlate.
** ** **
NOTURNO
Nossos olhos nos pertencem,
não o dia.
Amor não nos pertence
nem a morte.
Apenas pousam na pérola mais fina,
Desce o luar
No flanco de rios precipitados
Folhas se alongam
caules estremecem.
A noite já desfere
seu punhal de trevas. 

Eliana (Shir) Ellinger
Fontes de pesquisa:



domingo, 4 de maio de 2014

A. B. MENDES CADAXA







A. B. Mendes Cadaxa
(1917 - 2011)

Armindo Branco Mendes Cadaxa nasceu na cidade de São Paulo. Poeta e diplomata de carreira, serviu consulados e embaixadas na Argentina, Estados Unidos, Haiti, Itália, Jamaica, Polônia, Alemanha, Suiça, Trinidad, União Sobiética e Uruguai, o que lhe deu formação cosmopolita.
Escreveu poesias em português e inglês, publicou vários livros, em destaque  "Earthquare at Delphi"  (1966), "Elegis from the Lesser Sierras"  (1976), "Teu corpo é ouro só"  (1985), "Escadaria de Jade"  (1998), "Canto & Cor"(2004).
Fez parte do corpo de editores da revista inglesa de poesia "Envoi" por quase três décadas. É autor de obra vastíssima, inclusive peças teatrais em versos sobre temas históricos, nas quais exibe erudição e domínio das técnicas da poesia lírica e épica, como nas obras "Donina"  e " Dom Pedro e Isolda". Também escreveu romances de cordel em belíssimo estilo clássico.




           




Na acepção de João Cabral de Melo Neto, "Cadaxa traz um rítmo novo, há na linguagem algo ainda não tentado na língua portuguêsa". 
Sua excepcional inventividade aparece ao longo poema "Sombras", no qual Antonio Houaiss, autor do prefácio, aponta: " voz antiga e semântica (se a houver)".
A. B. Mendes Cadaxa, como é mais conhecido, ganhou diversos prêmios literários, entre os quais, o Prêmio Nacional de Poesia, do PEN Clube do Brasil, em 1997. Nesse mesmo ano recebeu o Prêmio Jabuti e, em 1999, ganhou a Medalha Paulo Rónai, pela União Brasileira de escritores, em virtude do livro "Escadaria de Jade", poemas traduzidos do chinês para o português.

 

 Em 2000, recebeu o Prêmio Jorge de Lima, da Academia Carioca de Letras. Pela peça  "A Rainha Implacável" , recebeu da União Brasileira de Escritores o Prêmio Guilherme de Figueiredo, em 2003. Seu estilo de escrever poesias conquistou aplausos de críticos, como Antônio Houaiss, Ivan Junqueira, Wilson Martins, Mauro Lucchesi, Fernando Py, entre outros.
Suas poesias são consideradas vindas de uma imaginação fértil, inesgotável e, com as sutilezas de suas mensagens, poderia ser cognomidado poeta hermético. Mas não o era. O que ele não fazia do poema fácil ou brincalhão. Homem de uma sinceridade a toda prova, escrevia o que sentia, com a influência do que ouviu e leu, como mostra sua vida bastante movimentada de diplomata.

VIAJANDO

Sol entre nuvens
Bom tempo para os navegantes.
Vou pela areia,
Chego no laguinho
Esquecido no final da praia
Ao retirar-se a maré vazante.
Mesmo pisando de mansinho
Assusto peixelins
A preamar ansiosos aguardando.
Trato de não perturbar festins
Gaivotas, siris
Se branqueando.
Cansado de vagar sobre os abismos
Embarco em uma nuvem
Refletida lá no fundo
Para uma viagem sideral
Impelido pelo vento.

CHEGA DE FALAR EM FLORES

Chega de falar em flores
Já te custa distinguir
Matizes, cores.
Mal reconheces
O penetrante olor do cravo
Há de colher uma braçada
Para a sala perfumar
Sei haver  coisas mais profundas
Neste mundo
Devastado pelos três ginetes
Do que flores, nuvens
Lages flutuantes.
Reprovam-me
Por não dar sentido social
Ao que hoje escrevo.



INSÔNIA

Levanto-me no escuro
Não acendo vela, posso despertá-la
tateando caminho para a sala
Não me estorvam móveis
Amigos de antanho
Reconheço-os de olhos fechados.
Acolhe-me a bergère em seus amplos braços
Espaldar ampara-me a cabeça
Inquieta , roubou-me o sono
Por uma quase nada
Procuro convence-la da  puerilidade
Entretanto
Não sossiga, não me dá descanso.
Escoam-se as horas
Pela clarabóia filtra-se a aurora
Dissipam-se trevas enfumando o cômodo
Teias de aranha envolvendo a mente
Envergo o meu poncho, desço as escadas
Sobre o vale surge o sol nascente.


 
Fontes de Pesquisa:
 



Eliana (Shir) Ellinger