Este blog tem por finalidade, homenagear consagrados poetas e escritores e, os notáveis poetas da internet.
A todos nosso carinho e admiração.

Clube de Poetas









terça-feira, 30 de junho de 2015

XAVIER DE CARVALHO



XAVIER DE CARVALHO
(1871 - 1944) 


Poeta, Inácio Xavier de Carvalho nasceu em São Luís no dia 26 de agosto de 1871. Integrou, juntamente com Antonio Lobo e Fran Paxeco, entre outros, a Oficina dos Novos, movimento de renovação literária empreendido por um grupo de escritores maranhenses no início do século XX.

Não há registros confiáveis sobre sua juventude. Com certeza, sabe-se apenas que estudou Direito em Recife, de onde retornou para o Maranhão. Exerceu cargos como o de promotor público, juiz municipal e professor de literatura no Liceu Maranhense. Colaborador assíduo dos jornais de sua época, deixou escritos dispersos no Pará, Amazonas e Maranhão, tendo publicado pouca coisa em livro.

Em 1893, com a idade de 23 anos, lançou sua primeira obra, intitulada Frutos Selvagens. O meio literário de São Luís vivia então um momento marcado pela mudança e pela ruptura. As forças da renovação artística, representadas principalmente por Antonio Lobo, insurgiam-se contra a herança da poesia fácil dos cultores do romantismo, movimento que ainda permanecia em voga entre os poetas locais.

A estréia de Inácio Xavier de Carvalho em livro, contribuiu para inaugurar uma nova fase na literatura maranhense, embora tenha ele próprio causado certa reação entre os renovadores da Oficina dos Novos por conta de sua inclinação para o simbolismo, visto por alguns destes como uma escola decadente e estéril.

Cultor do soneto e detentor de grande domínio técnico,  Xavier de Carvalho foi um poeta suave, impregnado pelo verso simbolista, contido, mas também parnasiano em muitas passagens, o que certamente contribuiu para dar corpo ao equívoco crítico de considerá-lo um romântico tardio. Na verdade, ele foi, antes de tudo, um artista perfeitamente integrado à corrente poética de seu tempo, marcada pela difícil convivência entre o parnasianismo e o simbolismo.
Político por vocação e gosto, Inácio Xavier de Carvalho viajou por Minas Gerais, Amazonas e Pará no exercício da magistratura, cedo perdendo contato com o Maranhão, para onde jamais regressou. Embora tenha permanecido bastante ativo, publicando periodicamente em jornais, consta que sua última obra, Parábolas e Parabolas, data de 1919.
Morreu no Rio de Janeiro em 17 de maio de 1944. 


NOIVAS MORTAS

Essas que assim se vão, fugindo prestes,
De ao pé dos noivos, carregando-os n'alma,
Amortalhadas de capela e palma
demanda dos páramos celestes;

Essas que, sob o horror que a morte espalma,
Vão dormitar à sombra dos ciprestes
Em demanda dos páramos celestes
Amortalhadas de capela e palma;

Essas irão aos céus, de olhos risonhos,
Por entre os Anjos, pelas mãos dos Sonhos,
De asas flaflando em trêmulos arrancos,

De Alvas Grinaldas pelas tranças frouxas
De olhos pisados e de olheiras roxas,
Todas cobertas de Pecados Brancos.


** ** **

VOLTA


Por desertos, por íngremes terrenos,
Fui um dia aos serões desta Ansiedade
Ver se ainda ouvia um só gorjeio ao menos
Do bando exul das aves da Saudade...

Debalde eu fui! O horror da tempestade
Tombando como pérfidos venenos
Dos amplos céus de minha Mocidade
Matara de uma vez todos os trenos...

Do alma horizonte pelas grandes curvas
Vi apenas milhares de aves turvas
Numa expansão dantesca de asas tortas...

E eu voltei... E ao chegar da casa em frente
Vi cair, aos meus olhos de Doente,
Um triste bando de andorinhas mortas!


** ** **
 EU!


(Aos que me não compreendem)

Vamos, pobre infeliz! Muda em asas teus braços!
Desfere o vôo teu, no anseio profundo,
Para o local que houver mais alto nos espaços,
Para o trecho do céu mais distante do mundo!

E uma vez lá chegando, errante e vagabundo,
Desta vida cruel liberta-te dos laços
E atira-te, a cantar, do precipício ao fundo...
Quero ver-te cair dividido em pedaços!

Morre como um herói! Deixa que o Meio brama!
Fecha o ouvido ao Elogio e os olhos fecha à Fama
E despreza da Inveja as pérfidas alfombras...

E morre, coração! Pois, ao morrer, enquanto
Tens Injustiças de uns, tens bênçãos de outro tanto...
– Morrerás como o Sol – entre Luzes e Sombras!


Eliana (Shir) Ellinger


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CARLOS PENA FILHO



CARLOS PENA FILHO

(1929 - 1960)
Filho de pais portugueses, Carlos Souto Pena e Laurinda Souto Pena, foi um poeta brasileiro considerado um dos mais importantes poetas pernambucanos na segunda metade do século XX, depois de João Cabral de Melo Neto.
Em 1937, com a separação dos pais, mudou-se para Portugal junto com a mãe e irmãos, Fernando e Mário, indo morar na casa dos avós paternos.  Lá viveu dos oito aos doze anos de idade, quando retornou ao Brasil.
Carlos Pena Filho fez o curso primário enquanto esteve em Portugal e o curso secundário no Recife. Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Recife, em frente à qual hoje se encontra o busto do poeta.
Em sua homenagem,
a escultura na Praça
da Independência.
Como advogado atuou na repartição do Estado e, em paralelo, trabalhou como jornalista no Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, onde fez reportagens, escreveu crônicas e publicou alguns de seus poemas.
Durante a vida contou com a amizade e admiração de muitos escritores e poetas de renome. Conviveu estreitamente com Manuel Bandeira, Joaquim Cardoso, João Cabral de Melo Neto, Moura Mota, Gilberto Freyre e Jorge Amado, dentre outros.
Carlos Pena Filho faleceu aos 31 anos, vítima de um acidente de carro ocorrido em 2 de junho de 1960, no Recife.
Sua obra poética é de um lirismo envolvente, com uma imagem plástica onde se destaca a cor, o movimento e a luz. Escreveu vários poemas, tendo nos títulos a palavra 'retrato' e cerca de uma centena contendo os nomes das cores ou referências a elas. Dentre outras, possuia forte interesse no Azul, a ponto de alguns poemas afirmarem que se trata de uma "poesia vestida de azul". Seu primeiro trabalho como poeta, o soneto "Marinha", foi publicado em 1947 pelo Diário de Pernambuco. Em 1952, publicou o primeiro livro: "Tempo da Busca".
Ainda estudante, publicou "Memórias do Boi Serapião", em 1956. Bacharelou-se em 1957 e no ano seguinte seu terceiro livro "A Vertigem Lúcida", premiado pela Secretaria de Educação e Cultura de Pernambuco. Em 1959, o "Livro Geral", reunindo sua obra poética já editada  acrescida de poemas novos (Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro).
Compositor, em parceria com Capiba, renomado músico pernambucano, foi autor de letras de músicas de sucesso, entre as quais destaca-se "A mesma rosa amarela", incorporada ao movimento de Bossa Nova na voz de Maysa.
SONETO OCO
Neste papel levanta-se um soneto
de lembranças antigas sustentado,
pássaro de museu, bicho empalhado,
madeira apodrecida de coreto.
De tempo e tempo e tempo alimentado,
sendo em fraco metal, agora é preto.
E talvez seja apenas um soneto
de si mesmo nascido e organizado.
Mas ninguém o verá? Ninguém. Nem eu,
pois não sei como foi arquitetado
e nem me lembro quando apareceu.
Lembranças são lembranças, mesmo pobres,
olha pois este jogo de exilado
e vê se entre as lembranças te descobres.
** ** **
PARA FAZER UM SONETO
Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere um instante ocasional
neste curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.
Aí, adote uma atitude avara
se você preferir a cor local
não use mais que o sol da sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.
Se não procure o cinza e esta vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse
antes, deixe leva-lo a correnteza.
Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.





Eliana (Shir) Ellinger

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quinta-feira, 30 de abril de 2015

CARLOS MAGALHÃES DE AZEREDO



CARLOS MAGALHÃES DE AZEREDO
(1872 - 1963)
 
 
Carlos Magalhães de Azeredo, filho de Caetano Pinto de Azeredo e Leopoldina Magalhães de Azeredo,  nasceu no Rio de Janeiro em 7 de setembro de 1872, e faleceu em Roma em 4 de novembro de 1963.
Jornalista, contista, poeta e ensaista, foi um dos dez intelectuais convidados para integrar o quadro dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Escolheu para patrono Domingos Gonçalves de Magalhães, a quem coube a Cadeira nº 9. Foi o mais novo dos fundadores e o último deles a falecer com 91 anos de idade.
Fez as primeiras letras no Colégio de São Carlos, no Porto, Portugal, de 1879 a 1880, continuando seus estudos no Colégio São Luís, de Itu, São Paulo, até 1887.
Cursou a Faculdade de Direito de São Paulo, na qual se bacharelou em 1893. Ingressou na carreira diplomática em 1895, ocupando os seguintes cargos: Segundo Secretário da Legação do Brasil no Uruguai 1895/96) e na Santa Sé (1896-1901); promovido a Primeiro Secretário em 1901 e Conselheiro rm 1911; Ministro residente em Cuba (1912) e na Grécia (1913/14); Ministro plenipotenciário na Santa Sé (1914/19) e Embaixador na mesma (1919/34). Atingindo esse posto máximo da carreira de diplomata, Magalhães de Azeredo aposentou-se, porém,  continuando a residir em Roma.
Sua vida diplomática fora do Brasil, prejudicou-lhe o contato com as novas gerações literárias, embora tivesse se dedicado desde cedo às letras. Aos 12 anos escreveu um pequeno volume de versos, "Inspirações de Infância",  que ficou inédito.

Estudante, colaborou em diversos jornais de São Paulo e do Rio, onde residiu antes de seguir para Montevidéu, em função diplomática.




Em 1895, publicou Alma Primitiva, em prosa e, em 1898, Procelárias, seu primeiro livro de poesias.
Vivendo a maior parte do tempo no Exterior, manteve-se em contato com Machado de Assis e Mário de Alencar, através de incontável correspondência, que se encontra guardada no Arquivo da Academia Brasileira de Letras.



 Tinha ele 17 anos quando dirigiu a Machado de Assis a sua primeira carta. Logo o mestre lhe reconheceu o valor como poeta. Passando o tempo, fez mais o grande romancista: pôs nas cartas que lhe dirigiu as suas principais confidências de escritor, numa prova de confiança que não dera a outro amigo. Essa correspondência foi reunida pelo professor americano Carmelo Virgilio e publicada, em 1996, pelo Instituto Nacional do Livro. A correspondência que ele entreteve com Mário de Alencar, além de interessar à biografia dos dois escritores, diz respeito igualmente ao espaço de vida literária brasileira, demarcado pela extensão dos seus diálogos. Magalhães de Azeredo também pertencia ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, à Academia Internacional de Diplomacia e ao Instituto de Coimbra.


 
O CHANCELER
 
 O velho chanceler é triste e carrancudo;
Sobre o peito, cismando, a calva fronte inclina,
E apoia a forte mão, que exércitos domina,
No seu melhor amigo - um grande cão felpudo.
 
Dir-se-ia Fausto ancião, que, concentrado e mudo,
Devorando o amargor da dúvida que o mina,
Mergulha o frio olhar pela opaca neblina,
Que, na terra e no céu, vai envolvendo tudo...
 
Que idéia agita a mente do ministro?
O passado? o remorso? a tirania? a glória?
Um plano de vingança? um combate sinistro?
 
Silêncio! Ele contempla uma visão estranha:
 Ve surgir, um por um, dentre as sombras da história,
 Os vultos colossais das lendas da Alemanha...
 
** ** **
 
 AFINIDADES
 
A ânfora equilibrando, com graça real, na cabeça,
vai a jovem Romana pelo pórtico umbroso.
 
Pura pobreza veste-a, do leve corpete as sandálias:
mas que tesouro as formas! Nos gestos de harmonia!
 
No portico ergue os olhos, passando, a uma graga Afrodite,
e por instinto sente: Somos da mesma raça...
 
** ** **
 
DESPEDIDA
 
 Não me coroes, Alma querida, de rosas: o encanto
da Juventude é efêmero; e a minha é quase extinta.
 
Também não me coroes de louros: a Glória não fala
ao coração, nem o ouve, passa, longínqua e fria.
 
Coroa-me das heras, que abraçam as graves ruínas:

são da humanidade símbolo, e da tristeza eterna... 




Eliana (Shir) Ellinger
 
Fontes de pesquisa:

ANTONIO FRANCISCO DA COSTA E SILVA


DA COSTA E SILVA
( 1885 - 1950)
 
 
Antônio Francisco da Costa e Silva, poeta brasileiro, é o autor do hino do Estado em que nasceu,  Piauí (Cidade de Amarante). Formou-se pela Faculdade de Direito do Recife. Foi funcionário do Ministério da Fazenda, tendo ocupado os cargos de Delegado do Tesouro no Maranhão, no Amazonas, no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Viveu não só na capital desses Estados, mas também, por mais de uma vez, em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro.
Exerceu função pública na Presidência da República do Brasil, entre 1931 e 1945, a pedido do então presidente Getúlio Vargas.
Começou a compor versos por volta de 1896, tendo seus primeiros poemas publicados em 1901. Pertenceu à Academia Piauiense de letras, Cadeira 21, cujo patrono é o padre Leopoldo Damasceno Ferreira.
 
             


Antônio Francisco da Costa e Silva foi um grande poeta que conquistou diferentes pessoas com seu jeito harmonioso de ser. Sua extraordinária obra oscilou entre o parnasianismo e o simbolismo, mas sempre com um estilo próprio inconfundível.
Recolheu-se ao silêncio, demente, em 1933 e veio a falecer em 29 de junho de 1950.
 

IN TENEBRIS
 
Cego, tateio em vão, num caminho indeciso...
Que é feito desse amor que tanto me entristece,
Que nasceu de um olhar, germinou num sorriso,
Que viveu num segredo e morreu numa prece?!
 
É um mistério talvez; desvenda-lo preciso.
A alma sincera e justa - odeia, não esquece...
Si essa a quem tanto quiz hoje me não conhece.
Morra a ventura vã que debalde idealiso.
 
Ai! desse amor nasceu a dor que me subjuga:
A dor me fez verter a lágrima primeira,
E a lágrima, a brilhar, cava a primeira ruga...
 
Atra desilusão crava-me a garra adunca.
Cego de amor, em vão tateio a vida inteira,
Buscando o amor feliz e esse amor não vem nunca.
 
 

*******

SAUDADE

 
Saudade! Olhar de minha mãe rezando,
E o pranto lento deslizando em fio...
Saudade! Amor da minha terra...O rio.
Cantigas de águas claras soluçando.
 
Noites de junho...O caburá com frio
Ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando...
E, ao vento, as folhas lívidas cantando
A saudade imortal de um sol de estio.
 
Saudade! Asa de dor do pensamento!
Gemidos vãos de canaviais ao vento...
As mortalhas de névoa sobre a serra...
 
Saudade! O Parnaíba - velho monge
As barbas brancas alongando...E, ao longe,
O mugido dos bois da minha terra...
 

 
Eliana (Shir) Ellinger

 
Fontes de pesquisa:
 
 

segunda-feira, 30 de março de 2015

MARIA BRAGA HORTA


MARIA BRAGA HORTA
(1913 - 1980)
 

Maria Braga Horta nasceu na Fazenda Boa Esperança, no Arraial de Bom Jesus da Cachoeira Alegre, Município de Muriaé, Minas Gerais, em 17 de fevereiro de 1913 e faleceu em Brasília, dia 6 de abril de 1980. Aos 12 anos de idade, começou a escrever versos e, aos 15, seus primeiros sonetos - o marco mais alto de suas obras.
Em 1930, iniciou as publicações de suas poesias  no Jornal Manhumirim, e logo em jornais e revistas do Espírito Santo, do Rio de Janeiro e outros Estados.
Em 1934, casou-se com o advogado e poeta Anderson de Araujo Horta, com quem teve cinco filhos - Anderson, Arlyson, Flávio, Glorinha e Goiano. O namoro começou antes que ela completasse vinte anos, e com ele estabeleceu-se um diálogo poético. Os primeiros versos de amor partiram do namorado, com um soneto de parabéns pelo aniversário da amada. Os poemas de Maria Braga Horta nesse diálogo constam do capítulo "Nossa História de Amor" , de seu livro "Caminho de Estrelas", publicado em 1996, após sua morte, pela Massao Ohno Editora, sob organização do filho também poeta, Anderson Braga Horta. 



Com o marido Anderson de Araújo Horta, peregrinou por uma dezena se cidades de Minas Gerais e Goiás. Teve seu soneto "Legado" incluído por Carlos Drummond de Andrade em "Uma Pedra no Meio do Caminho". Figurou em antologias poéticas do 2º Torneio Poético da Poesia Falada (Niterói), de Joanyr de Oliveira, de Aparício Fernandes e de Nilto Maciel, no volume 2 de Escritores Brasileiros ao Vivo, Danilo Gomes, em Antologia de Contos de Napoleão Valadares e em seu dicionário de Escritores de Brasília.
Detentora de vários prêmios, alcançou o 1º lugar no Primeiro Concurso de Poesia da Fundação de Assistência aos Garimpeiros (Brasília, 1971).



 EXORTAÇÃO
 
Alma inquieta e sem rumo, sem morada
dentro do próprio ser, que te acontece?
Para onde vais? Que buscarás na estrada
onde o esplendor do sol desaparece?
 
Que desejas colher nessa encantada
terra de sonhos? Que dourada messe
supões haver na senda extraviada
onde nem mesmo o sonho permanece?
 
Olha em torno de ti. Volta e procura
em ti mesma o caminho da ventura
que andas buscando sem saber se existe...
 
Encontrando-te, enfim, terás a glória
de tornar a existência transitória
mais serena, mais terna, e menos triste.
 
** ** **
 
LIRISMO
 
Fale um outro poeta mais austero
de temas, em geral, de alto horizonte,
ou imite Camões, Virgílio, Homero,
buscando a inspiração em nobre fonte.
 
Que eu não tento transpor tão longa ponte
e pemetrar num mundo tão severo.
Como Kháyyám, Gonzaga e Anecreonte,
só canto o amor, só dele a glória espero.
 
"Ser poeta é ser triste." Esta legenda
vem na fronte da porta e é como prenda
que lhe fazem as musas no batismo.
 
Desse prêmio, porém, não tive a parte,
e me faltando enredo, engenho a arte,
falo de amor no mais banal lirismo.




 Eliana Ellinger
 
Fonte de pesquisa:
 

ANTERO DE QUENTAL



ANTERO DE QUENTAL
(1842 - 1891)
 
 
Antero Tarquínio de Quental nasceu em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, nos Açores, Portugal. Filho do combatente Fernando de Quental e Ana Guilhermina da Maia, iniciou seus estudos em Ponta Delgada e, com 16 anos, foi estudar Direito em Coimbra.

Foi poeta e filósofo português, um verdadeiro líder intelectual do Realismo em  sua pátria. Dedicou-se à reflexão dos grandes problemas filosóficos e sociais de seu tempo e contribuiu para a implantação das idéias renovadoras da geração de 1870.




Em 1861 publicou seu primeiro livro, "Sonetos de Antero". Em 1865, um grupo de estudantes da Universidade de Coimbra, critica as velhas idéias do Romantismo, o que fez surgir uma polêmica entre a velha e a nova geração de poetas. Essa manifestação originou-se de um texto do poeta romântico António Feliciano de Castilho, no qual ele criticava as novas idéias literárias de Antero de Quental e Teófilo Braga.
Antero responde de maneira violenta, escrevendo uma carta aberta que foi divulgada com o título de "Bom senso e bom gosto". Nela, Antero acusa Castilho de obscurantismo e defende a liberdade de pensamento dos novos escritores.





 Nesse mesmo ano, Antero de Quental publica  "Odes Modernas". Em 1886. foi morar em Lisboa, onde trabalhou numa tipografia. Em 1867 foi morar em Paris, regressando para Lisboa em 1868. Em 1869, funda o jornal "A República" . Em 1871, junto com Eça de Queirós, Oliveira Martins e Ramalho Ortigão, planeja uma série de "Conferências Democráticas", que eram realizadas no Cassino Lisboense.
Antero de Quental expressa em seus sonetos a sua inquietação religiosa e metafísica, constituindo a parte mais importante de sua obra  "Sonetos de Antero" (1861), "Primaveras Românticas" (1872), "Sonetos Completos" (1886), "Raios de Extinta Luz" (1892), entre outros de grande sucesso até os dias de hoje.
É considerado, ao lado de Bocage e Camões, um grande sonetista da literatura portuguesa.
Antero de Quental, sofrendo de depressão, suicida-se no dia 11 de setembro de 1891, em Ponta Delgada, sua terra natal.


NIRVANA
 
Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;
 
Poder viver em todas as idades,
Poder andar por todos os caminhos,
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;
 
Passear pela terra e achar tristonho
Tudo que em torno se ve, nela espalhado,
A vida olhar como através de um sonho;
 
Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro - é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!
 
** ** **


HINO À RAZÃO
 
Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre, só à ti submissa.
 
Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece,
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra viça.
 
Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre clarões,
E os que olham o futuro e cismam, mudos
 
Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe dos filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!
 
 
** ** **
 
Eliana Ellinger
 
Fontes de pesquisa:
 
 

ANDERSON DE ARAÚJO HORTA


ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 - 1985)
 
 
Nasceu em Tombos, Zona da Mata mineira, em 30 de novembro de 1906. Estudou na cidade natal,em Leopoldina e em Carangola, diplomou-se em 1931 pela Academia de Comércio de Juiz de Fora e, em 1937 pela Faculdade de Direito da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro.
Casou-se em Manhumirim, Minas Gerais, com a poetisa Maria Braga, cuja biografia e poesias publicamos na edição anterior.
Antes e depois de formado, Anderson Horta lecionou Inglês, Geografia e História, em Carangola, em Goiás - no Liceu Oficial - e no Rio de Janeiro. Em 1945, foi chamado da antiga Vila Boa de Goiás por Pedro Ludovico para ocupar o cargo de Primeiro-Promotor Público em Goiânia.
 

Em 1947, voltou ao Estado natal, onde continuou advogando. Em 1956, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde ficou ora advogando, ora lecionando. Em 1964 transferiu-se para Brasília, onde faleceu em 16 de junho de 1985.
Anderson de Araújo Horta deixou um romance inédito e grande número de poemas, alguns deles publicados em jornais, revistas e antologias.
Em 2004 as Edições Galo Branco, do Rio de Janeiro, publicou seu livro de poesias "Invenção do Espanto" .


SOL COM CHUVA
 
Quando você nasceu, eu tive um choque imenso,
pois não podia pensar
que você fosse fazer um berreiro daqueles!
 
Eu estava no quarto esperando você,
como se espera, paradoxalmente,
um desconhecido querido.
 
Eu era moço. Não tinha esperiência alguma.
E, por isso, pensei que você fosse nascer
como menino bem comportado...
 
Mas agora já sei que os homens nascem
gritando e reclamando,
com pressa de viver.
(Porque têm pressa de tudo...)
 
O fato é que quando vi e ouvi você
tomar posse do mundo,
não pude me furtar às lágrimas.
 
E desde então qprendi que as grandes,
as extraordinárias alegrias
são como o sol com a chuva...
 
 
** ** **
 
DESCOBERTA
 
Neste lar, nosso amor, pobre de arneses,
foi prenúncio feliz de um grande dia,
E refletia-se em nós dois, às vezes,
calmo porto que Deus nos conduzia.
 
Você nasceu nos meios montanhenses,
tendo o brasão apenas da Poesia...
sem lanças, sem broquéis e sem paveses,
mas tendo o grande amor dos pais por guia!
 
Quando você nasceu, nasceu gritando,
como quem toma posse, de repemte,
de uma terra inda há pouco conquistada...
 
De modo que eu me vi também chorando,
sem saber traduzir corretamente
a sua primeiríssima balada!