Este blog tem por finalidade, homenagear consagrados poetas e escritores e, os notáveis poetas da internet.
A todos nosso carinho e admiração.

Clube de Poetas









sábado, 14 de março de 2015

DIA NACIONAL DA POESIA




O Dia Nacional da Poesia no Brasil, foi criado  em homenagem a Antônio Frederico de Castro Alves

Antônio Frederico de Castro Alves foi um importante poeta brasileiro do século XIX. Nasceu na cidade de Curralinho (Bahia) em 14 de março de 1847.



No período em que viveu (1847-1871), ainda existia a escravidão no Brasil. O jovem baiano, simpático e gentil, apesar de possuir gosto sofisticado para roupas e de levar uma vida relativamente confortável, foi capaz de compreender as dificuldades dos negros escravizados.



Manifestou toda sua sensibilidade escrevendo versos de protesto contra a situação a qual os negros eram submetidos. Este seu estilo contestador o tornou conhecido como o "Poeta dos Escravos".



Aos 21 anos de idade, mostrou toda sua coragem ao recitar, durante uma comemoração cívica, o "Navio Negreiro". A contra gosto, os fazendeiros ouviram-no clamar versos que denunciavam os maus tratos aos quais os negros eram submetidos.



Além de poesia de caráter social, este grande escritor também escreveu versos líricos-amorosos, de acordo com o estilo de Vítor Hugo. Pode-se dizer que Castro Alves foi um poeta de transição entre o Romantismo e o Parnasianismo.



Este notável escritor morreu ainda jovem, em 6 de julho de 1871 em Salvador, antes mesmo de terminar o curso de Direito que iniciara, pois, vinha sofrendo de tuberculose desde os seus 16 anos.



Apesar de ter vivido tão pouco, este artista notável deixou livros e poemas significativos.



Poesias de Castro Alves:


- Espumas Flutuantes, 1870


- A Cachoeira de Paulo Afonso, 1876


- Os Escravos, 1883



- Hinos do Equador, em edição de suas Obras Completas (1921)


- Navio Negreiro (1869)


- Tragédia no lar


Fonte de  Pesquisa     http://www.suapesquisa.com/

Marilda Conceição



Navio Negreiro

Castro Alves


'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço 

Brinca o luar - dourada borboleta; 
E as vagas após ele correm... cansam 
Como turba de infantes inquieta. 

'Stamos em pleno mar... Do firmamento 
Os astros saltam como espumas de ouro... 
O mar em troca acende as ardentias, 
- Constelações do líquido tesouro... 

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos 
Ali se estreitam num abraço insano, 
Azuis, dourados, plácidos, sublimes... 
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?... 

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas 
Ao quente arfar das virações marinhas, 
Veleiro brigue corre à flor dos mares, 
Como roçam na vaga as andorinhas... 

Donde vem? onde vai? Das naus errantes 
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? 
Neste saara os corcéis o pó levantam, 
Galopam, voam, mas não deixam traço. 

Bem feliz quem ali pode nest'hora 
Sentir deste painel a majestade! 
Embaixo - o mar em cima - o firmamento... 
E no mar e no céu - a imensidade! 

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa! 
Que música suave ao longe soa! 
Meu Deus! como é sublime um canto ardente 
Pelas vagas sem fim boiando à toa! 

Homens do mar! ó rudes marinheiros, 
Tostados pelo sol dos quatro mundos! 
Crianças que a procela acalentara 
No berço destes pélagos profundos! 

Esperai! esperai! deixai que eu beba 
Esta selvagem, livre poesia 
Orquestra - é o mar, que ruge pela proa, 
E o vento, que nas cordas assobia... 
.......................................................... 

Por que foges assim, barco ligeiro? 
Por que foges do pávido poeta? 
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira 
Que semelha no mar - doudo cometa! 

Albatroz! Albatroz! águia do oceano, 
Tu que dormes das nuvens entre as gazas, 
Sacode as penas, Leviathan do espaço, 
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas. 


II


Que importa do nauta o berço, 
Donde é filho, qual seu lar? 
Ama a cadência do verso 
Que lhe ensina o velho mar! 
Cantai! que a morte é divina! 
Resvala o brigue à bolina 
Como golfinho veloz. 
Presa ao mastro da mezena 
Saudosa bandeira acena 
As vagas que deixa após. 

Do Espanhol as cantilenas 
Requebradas de langor, 
Lembram as moças morenas, 
As andaluzas em flor! 
Da Itália o filho indolente 
Canta Veneza dormente, 
- Terra de amor e traição, 
Ou do golfo no regaço 
Relembra os versos de Tasso, 
Junto às lavas do vulcão! 

O Inglês - marinheiro frio, 
Que ao nascer no mar se achou, 
(Porque a Inglaterra é um navio, 
Que Deus na Mancha ancorou), 
Rijo entoa pátrias glórias, 
Lembrando, orgulhoso, histórias 
De Nelson e de Aboukir.. . 
O Francês - predestinado - 
Canta os louros do passado 
E os loureiros do porvir! 

Os marinheiros Helenos, 
Que a vaga jônia criou, 
Belos piratas morenos 
Do mar que Ulisses cortou, 
Homens que Fídias talhara, 
Vão cantando em noite clara 
Versos que Homero gemeu ... 
Nautas de todas as plagas, 
Vós sabeis achar nas vagas 
As melodias do céu! ... 


III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! 
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano 
Como o teu mergulhar no brigue voador! 
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras! 
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ... 
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror! 


IV


Era um sonho dantesco... o tombadilho 
Que das luzernas avermelha o brilho. 
Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros... estalar de açoite... 
Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar... 

Negras mulheres, suspendendo às tetas 
Magras crianças, cujas bocas pretas 
Rega o sangue das mães: 
Outras moças, mas nuas e espantadas, 
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs! 

E ri-se a orquestra irônica, estridente... 
E da ronda fantástica a serpente 
Faz doudas espirais ... 
Se o velho arqueja, se no chão resvala, 
Ouvem-se gritos... o chicote estala. 
E voam mais e mais... 

Presa nos elos de uma só cadeia, 
A multidão faminta cambaleia, 
E chora e dança ali! 
Um de raiva delira, outro enlouquece, 
Outro, que martírios embrutece, 
Cantando, geme e ri! 

No entanto o capitão manda a manobra, 
E após fitando o céu que se desdobra, 
Tão puro sobre o mar, 
Diz do fumo entre os densos nevoeiros: 
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros! 
Fazei-os mais dançar!..." 

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . . 
E da ronda fantástica a serpente 
Faz doudas espirais... 
Qual um sonho dantesco as sombras voam!... 
Gritos, ais, maldições, preces ressoam! 
E ri-se Satanás!... 


V


Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus?! 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?... 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! 

Quem são estes desgraçados 
Que não encontram em vós 
Mais que o rir calmo da turba 
Que excita a fúria do algoz? 
Quem são? Se a estrela se cala, 
Se a vaga à pressa resvala 
Como um cúmplice fugaz, 
Perante a noite confusa... 
Dize-o tu, severa Musa, 
Musa libérrima, audaz!... 

São os filhos do deserto, 
Onde a terra esposa a luz. 
Onde vive em campo aberto 
A tribo dos homens nus... 
São os guerreiros ousados 
Que com os tigres mosqueados 
Combatem na solidão. 
Ontem simples, fortes, bravos. 
Hoje míseros escravos, 
Sem luz, sem ar, sem razão. . . 

São mulheres desgraçadas, 
Como Agar o foi também. 
Que sedentas, alquebradas, 
De longe... bem longe vêm... 
Trazendo com tíbios passos, 
Filhos e algemas nos braços, 
N'alma - lágrimas e fel... 
Como Agar sofrendo tanto, 
Que nem o leite de pranto 
Têm que dar para Ismael. 

Lá nas areias infindas, 
Das palmeiras no país, 
Nasceram crianças lindas, 
Viveram moças gentis... 
Passa um dia a caravana, 
Quando a virgem na cabana 
Cisma da noite nos véus ... 
... Adeus, ó choça do monte, 
... Adeus, palmeiras da fonte!... 
... Adeus, amores... adeus!... 

Depois, o areal extenso... 
Depois, o oceano de pó. 
Depois no horizonte imenso 
Desertos... desertos só... 
E a fome, o cansaço, a sede... 
Ai! quanto infeliz que cede, 
E cai p'ra não mais s'erguer!... 
Vaga um lugar na cadeia, 
Mas o chacal sobre a areia 
Acha um corpo que roer. 

Ontem a Serra Leoa, 
A guerra, a caça ao leão, 
O sono dormido à toa 
Sob as tendas d'amplidão! 
Hoje... o porão negro, fundo, 
Infecto, apertado, imundo, 
Tendo a peste por jaguar... 
E o sono sempre cortado 
Pelo arranco de um finado, 
E o baque de um corpo ao mar... 

Ontem plena liberdade, 
A vontade por poder... 
Hoje... cúm'lo de maldade, 
Nem são livres p'ra morrer. . 
Prende-os a mesma corrente 
- Férrea, lúgubre serpente - 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ... 


VI


Existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!... 
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia? 
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 

Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 

Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

segunda-feira, 9 de março de 2015

ANA LUIZA AMARAL



ANA LUIZA AMARAL
 
 
Ana Luiza Amaral nasceu em Lisboa e vive, desde os nove anos, em Leça da Palmeira. Tem um doutoramento sobre a poesia de Emily Dickinson e as suas áreas de investigação são Poéticas Comparadas, Estudos Feministas e Estudos Queer. É professora associada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde integra também a direção do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa. Tem publicações acadêmicas em Portugal e no estrangeiro. É autora, com Ana Gabriela Macedo, do Dicionário de Crítica Feminista (Porto: Afrontamento, 2005) e preparou a edição anotada de Novas Cartas Portuguesas (1972) de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.
Ana Luiza está representada em inúmeras antologias portuguesas e estrangeiras, seus poemas lidos em vários países, como Brasil, Espanha, Irlanda, Rússia, Estados Unidos da América, Alemanha, Romenia, Polônia, Suécia, Holanda, China, México, Colômbia e Argentina.



Em torno de seus livros de poesia e infantís, foram levados à cena espetáculos de teatro e leituras encenadas, como O Olhar Diagonal das Coisas, A História da Aranha Leopoldina, Próspero Morreu ou Amor aos Pedaços.
Em 2007, venceu o Prêmio Literário Casino da Pávoa, atribuido no âmbito do encontro de escritores de expressão ibérica Correntes d'Escritores na Pávoa de Vaizim, com a obra A Génese do Amor. No mesmo ano, foi galardoada na Itália com o Prêmio de Poesia Giuseppe Acerbi. 




Ana Luiza também recebeu, em 2008, o Grande Prêmio de Poesia da APE (Associação Portuguesa de Escritores, com seu livro Entre Dois Rios e Outras Noites.
Em 2014, a Editora Peter Lang, do Reino Unido, edita um livro de ensaios reunidos. 

ESPAÇOS
 
As nuvens não se rasgaram
nem o sol: só a porta
do meu quarto
 
A abrir-se noutras
portas dando para outros
quartos e um corredor ao fundo
 
Não havia janelas nem
silêncios: sinfonias por dentro
a rasgar o silêncio
 
A porta do meu quarto
já nem porta: madeiramento
para o fogo.
 

******


NAVEGAÇÕES DOENTES
 
Tenho os sintomas todos:
navegam-me fluidos
e o devaneio em barcos de desejo.
 
Os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos,
esclerótica paixão que não domino.
 
Tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do fundo
navegante, os barcos.
 



Eliana (Shir) Ellinger
 

Fontes de Pesquisa:
 
 

ALEXANDRE O'NEILL


ALEXANDRE O'NEILL
(1924 - 1986)
 
 

Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill de Bulhões, poeta português, descendente de irlandeses nasceu em Lisboa. Autodidata, fez os estudos liceais, frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência, no ramo dos seguros, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, e foi técnico de publicidade. Durante algum tempo, publicou uma crônica semanal no Diário de Lisboa.
Datam do ano de 1947 duas cartas de O'Neill que demonstram o seu interesse pelo surrealismo, dizendo numa delas (de Outubro) possuir já os Manifestos de Breton e a Histoire du Surrealisme de M. Nadeau. Nesse mesmo ano, O'Neill, Cesariny e Mário Domingues começam a fazer experiências a nível da linguagem, na linha do surrealismo, sobretudo com os seus Cadáveres Esquisitos e Diálogos Automáticos, que conduziam ao desmembramento do sentido lógico dos textos e à pluralidade de sentidos. Por volta de 1948, fundou com o poeta Cesariny, com José-Augusto França, António Pedro e Vespeira, o Grupo Surrealista de Lisboa.
Em 1949, tiveram lugar as principais manifestações do movimento surrealista em Portugal, como a Exposição do Grupo Surrealista de Lisboa. Nessa ocasião, Alexandre O'Neill publicou A Ampola Miraculosa, constituída por 15 imagens sem qualquer ligação e respectivas legendas, sem que entre imagem e legenda se estabelecesse um nexo lógico, o que torna altamente irônico o subtítulo da obra, «romance». Esta obra poderá ser considerada paradigmática do surrealismo português. Foram lançados, ainda nesse ano, os primeiros números dos Cadernos Surrealistas.



 Depois de uma fase de ataques pessoais entre os dois grupos (1950-52), que atingiram sobretudo José-Augusto França, e após a morte de António Maria Lisboa, extinguiram-se os grupos surrealistas, continuando todavia o surrealismo a manifestar-se na produção individual de alguns autores, incluindo o próprio Alexandre O'Neill, que se demarcara, já em 1951, no Pequeno Aviso do Autor ao Leitor, inserido em Tempo de Fantasmas. Nessa mesma obra, sobretudo na primeira parte, Exercícios de Estilo (1947-49), a influência do surrealismo manifesta-se em poemas como Diálogos Falhados, Inventário ou A Central das Frases e na insistência em motivos comuns a muitos poetas surrealistas, como a bicicleta e a máquina de costura. Na segunda parte da obra, Poemas (1950-51), essa influência, embora ainda presente, é atenuada, como em No Reino da Dinamarca (1958) e Abandono Vigiado (1960).



Depois de uma fase de ataques pessoais entre os dois grupos (1950-52), que atingiram sobretudo José-Augusto França, e após a morte de António Maria Lisboa, extinguiram-se os grupos surrealistas, continuando todavia o surrealismo a manifestar-se na produção individual de alguns autores, incluindo o próprio Alexandre O'Neill, que se demarcara, já em 1951, no Pequeno Aviso do Autor ao Leitor, inserido em Tempo de Fantasmas. Nessa mesma obra, sobretudo na primeira parte, Exercícios de Estilo (1947-49), a influência do surrealismo manifesta-se em poemas como Diálogos Falhados, Inventário ou A Central das Frases e na insistência em motivos comuns a muitos poetas surrealistas, como a bicicleta e a máquina de costura. Na segunda parte da obra, Poemas (1950-51), essa influência, embora ainda presente, é atenuada, como em No Reino da Dinamarca (1958) e Abandono Vigiado (1960).




Alexandre O'Neill escreveu Tempo de Fantasmas (1951), No Reino da Dinamarca (1958), Abandono Vigiado (1960), Poemas com Endereço (1962), Feira Cabisbaixa (1965), De Ombro na Ombreira (1969), Entre a Cortina e a Vidraça (1972), A Saca de Orelhas (1979), As Horas Já de Números Vestidas (1981), Dezenove Poemas (1983) e O Princípio da Utopia (1986). A sua obra poética foi ainda recolhida em Poesias Completas, 1951-1984. Foi ainda editada uma antologia, postumamente, com o título Tomai Lá do O'Neill (1986). Publicou dois livros em prosa narrativa, As Andorinhas não Têm Restaurante (1970) e Uma Coisa em Forma de Assim (1980, volume de crónicas), e as Antologias Poéticas de Gomes Leal e de Teixeira de Pascoaes (em colaboração com F. Cunha Leão), de Carl Sandburg e João Cabral de Melo Neto. Gravou o disco «Alexandre O'Neill Diz Poemas de Sua Autoria». Em 1966, foi traduzido e publicado na Itália, pela editora Einaudi, um volume da sua poesia, Portogallo Mio Rimorso. Recebeu, em 1982, o Prémio da Associação de Críticos Literários.
Em 1976, sofre um ataque cardíaco, que o poeta admitiu causado pela vida desregrada que sempre tinha. No início dos anos 80, já divorciado de Teresa Gouveia, repartia o seu tempo entre a casa e a Rua da Escola Politécnica e a Vila de Constância. Em 1984, sofreu um acidente vascular cerebral. Faleceu em Lisboa, em 31 de agosto desse ano.
A 10 de junho de 1990 deram-lhe, em homenagem póstuma, o título de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'lago da Espada.

 
  
AOS VINDOUROS, SE HOUVER
 
Vós, que trabalhais só duas horas,
a ver a trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes ética;
 
Que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres do medo,
sem peçarios, calendários, pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;
 
Computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pr' aqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;
 
Que nós fomos (fatal necessidade)
quadrúmanos da vossa humanidade.


** ** *
  
O AMOR
 
O amor é amor - e depois?
vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...
 
O meu peito contra o teu peito
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há o espaço para amar!
 
Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois?
espírito e calor!
 
O amor é o amor - e depois?





Eliana (Shir) Ellinger
 
Fontes de pesquisa:
 



AFONSO FÉLIX DE SOUSA


AFONSO FÉLIX DE SOUSA
(1925 - 2002)
 
 
 
Afonso Félix de Sousa, filho de Raul Félix de Sousa e Franciaca Amorim Félix, nasceu em Jaraguá, Goiás, em 5 de julho de 1925. Aos nove anos mudou-se para Pires do Rio (GO), onde seu pai foi exercer o cargo de agente fiscal de rendas estaduais.
Fez os estudos primários em sua terra natal, o ginásio no Colégio Nossa Senhora Mãe de Deus, em Catalão (GO) e no Ginásio Anchieta de Bonfim, hoje Silvânia-GO e  concluiu o segundo grau no Lyceu de Goiânia.
Em 1942, Afonso Félix publicou os primeiros poemas no jornal Voz Juvenil,  do Ginásio
Anchieta. No ano seguinte, mudou-se para Goiânia, onde iniciou sua atividade literária, colaborando em jornais como O Popular , A Folha de Goiás e na revista Oeste. Em 1946, fundou a Associação Brasileira de Escritores (sessão de Goiás)

sendo eleito, no Rio de Janeiro, secretário da ABDE, quando era Presidente o romancista Graciliano Ramos.




Em 1953, foi contemplado com bolsa de estudos para um curso de especialização em economia na École Pratique des Hautes Études, da Sorbone, em Paris. Dois anos depois, retorna ao Brasil. Designado pelo Ministro das Relações Exteriores e pelo Banco do Brasil, em 1970, Afonso Félix foi adido na Embaixada Brasileira, em Beirute.
Em 1975, aposentou-se no Banco do Brasil, onde trabalhou muitos anos nos setores de câmbio e comércio exterior. Então, passou a residir em Chicago a partir de 1986.
Sua estréia em livros foi O Túnel, coletânea de poemas editada pela revista Orfeu, em 1948.
Em 1999, teve sua obra Íntima Parábola incluida por um seleto juri e escolhido pelo jornal 'O Popular' , de Goiânia, entre os 20 livros mais importantes do século XX, em Goiás. 




Afonso Félix fundou as revistas 'Agora'  e 'Ensaio' , a Assossiação Brasileira de Escritores e Assossiação Nacional de Escritores. Recebeu os Prêmios: Olavo Bilac, do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação do então Distrito Federal, em 1957, com o livro Íntima Parábola; Prêmio Alvares de Azevedo, da Academia Paulista de Letras, em 1960, com o livro Íntimas Parábolas; Prêmio Tioco, da União Brasileira de Escritores, seção Goiás, em 1979, com o livro Antologia Poética; Prêmio de poesia do Pen Club do Brasil, em 1981, com a coroa de sonetos A Engrenagem do Belo; Prêmio Jaburu, do Conselho Estadual de Cultura de Goiás, em 1990, como 'Personalidade do Ano'; Prêmio Nacional de Poesia 2001 da Academia Brasileira de Letras. 
Afonso Félix foi casado com a poetisa Astrid Cabral e irmão dos escritores Domingos e Aída Félix de Souza. Faleceu no Rio de Janeiro, dia 07 de setembro de 2002.


 SONETO ELEMENTAR
 
Nos recantos tranquilos encontrava
a poesia. Sobre mim e o rio
debruçavam-se as árvores. Os pássaros
eram ecos nos seus primeiros cantos.
 
Ruas de chuvas leves, nunca o inverno.
Com o menino brincar vinhas as tardes
e vinha o céu. Adeus, nuvens cinzentas
onde vagam os monstros meus da infância.
 
Já não vibram as músicas ingênuas
na planície escutadas. A poesia
difícil se tornou e vive em sombras.
 
Em mim que tanto amei hoje às palavras
movem-se para as ásperas mensagens
e vão morrer na incompreensão dos gestos.
 
** ** **
 
SONETO DO REENCONTRO
 
Nada mais esperar, se o sentimento
que um dia escravo e deus de mim fizera,
é hoje o doce e amargo no alimento
a alimentar quem sou com quem eu era.
 
E nunca o fui, senão em pensamento.
Nada mais a esperar? - Mas clama a espera no fundo
do que sonho, quero e invento
com o que resiste, em mim, ao anjo e à fera.
 
Oh, não mais esperar! - E o desespero
seria em minha voz, como em meus braços,
a espera mais total, do prisioneiro
 
Que, encerrado em si mesmo, sente o espaço...
Que inteiro está o amor no derradeiro
pedaço deste amor que despedaço.
 


Eliana (Shir) Ellinger
 

Fontes de Pesquisa:
 

RODRIGUES DE ABREU


RODRIGUES DE ABREU
(1897 - 1927)
 
 
Benedito Luis Rodrigues de Abreu, nasceu em Capivari em 27 de setembro de 1897, na fazenda Picadão. Aos sete anos passou a morar em Piracicaba, onde começou os estudos em "escola de sítio".
Aos 12 anos foi para São Paulo com a família, primeiro moraram no Brás, depois em Vila Albuquerque, onde trabalhou numa farmácia com entregas a domicílio, até ser internado no Liceu Coração de Jesus, para aprender uma profissão. Em maio de 1918 voltou com a família para Capivari, onde trabalhou na Caixa de Crédito Agrícola.
Seu contato com a poesia aconteceu no colégio, onde aprendeu métrica lendo Simões Dias e sua primeira composição, de acordo com os amigos, foi "O Famélico", obra inspirada no "Pedro Ivo" de Castro Alves.
As obras mais antigas do poeta capivariano foram descobertas pelo professor Carlos Lopes de Mattos, intituladas O Caminho do Exílio e A Virgem Maria, ambas publicadas na revista Ave Maria, em novembro/dezembro de 1916. Em Capivari seus poemas eram publicados nos jornais Gazeta de Capivari e O Município.
Além de poeta, Rodrigues de Abreu era orador talentoso, grande ator e desportista. Foi centro-avante do Capivariano F.C., para o qual compôs o hino oficial.
Ele fundou o "Grêmio Literário e Recreativo de Capivari, grupo que encenou Capivari em Camisola, escrita por Epaminondas de Almeida, na parte em prosa e por Rodrigues de Abreu nas passagens em versos.
O seu livro de estréia deveria ter sido Folhas, que foi submetido à apreciação de Amadeu Amaral que referiu-se assim à obra: "Depois de Olavo Bilac e Martins Fontes, é o melhor livro de estréia que tenho visto". Contudo, devido à dificuldades de publica-lo e levado pelo interesse de seu primeiro editor (Amadeu Castanho) de publicar o que o jovem escritor desejasse, antes de Folhas sugiu Noturnos com evidente sucesso.
Trabalhou com Amadeu Amaral em A Cigarra , em São Paulo, em 1921 e em 1922 foi para Bauru. Dois anos depois teve que ser internado em Campos do Jordão devido à tuberculose que já se pronunciara em 1919.


 nessa época que lança A Sala dos Passos Perdidos e passa a assinar 'Rodrigues Abreu'.
Em 1925 mudou-se para São José dos Campos. Surge então sua obra, Casa Destelhada.
Em 1927 foi para Atibaia e retornou à Bauru, onde veio a falecer aos 30 anos de idade, devido à doença.

Desde o início, Abreu já confessara o desejo de "ser tuberculoso". Segundo ele, esse era o mal que geralmente acometia os grandes poetas do passado.
"Com ele, (escreveu Odílio Costa Filho) expira o simbolismo no Brasil e expira com beleza. Dor e beleza" .

AO LUAR
 
Os santos óleos, do alto, o luar derrama...
Eu, pecador, ao claro luar ungido,
Sonho: e sonhando rezo comovido
E arrebatado na divina chama.
 
Deus piedoso, consolo do oprimido,
Se compadece, à voz que ardente clama,
Porque meu coração, impura lama,
É um brado intenso para os céus erguido!
 
E o divino perdão desce da altura:
Grandes lírios alvíssimos florescem
Sob a lua. floresce a formosura...
 
E nessa florescência, imaculados
Raios longos do luar piedoso descem,
Choram comigo sobre os meus pecados.
 
******
 
CASA DESTELHADA
 
A minha vida é uma casa destelhada
por um vento fortíssimo de chuva
(As goteiras de todas as misérias
estão caindo em lentidão perversa
na terra triste do meu coração).
 
A minha alma, a inquilina, está pensando
que é preciso mudar-se, que é preciso
ir para uma casa bem coberta...
 
(As goteiras estão caindo,
lentamente, perversamente,
na terra molhada do meu coração).
 
Mas a minha alma está pensando
em adiar, quanto mais, a mudança precisa.
Ela quer muito à velha casa
em que foi feliz...
E encolhe-se, toda transida de frio,
fugindo às goteiras que caem lentamente
na terra esverdeada do meu coração!
 
Oh! A felicidade estranha
de pensar que a casa aguenta mais
um ano
nas paredes oscilantes!
Oh! a felicidade voluptuosa
de adiar a mudança, demorá-la,
ouvindo a música das goteiras tristes,
que caem lentamente, perversamente,
na terra gelada do meu coração!
 
** ** **
 
Eliana (Shir) Ellinger


Fontes de Pesquisa:
 


domingo, 25 de janeiro de 2015

CAMILO PESSANHA



CAMILO PESSANHA

(1867 - 1926)


Camilo de Almeida Pessanha, foi um poeta português, considerado expoente máximo so simbolismo em língua portuguesa, além de antecipador do princípio modernista da fragmentação.
Nasceu como filho ilegítimo de Francisco António de Almeida Pessanha, um estudante de direito e aristocracia, e Maria Espírito Santo Duarte Nunes Pereira, sua empregada, em 7 de setembro de 1867, na Sé Nova, Coimbra, Portugal.
Formou-se  no curso de direito em Coimbra, foi Procurador Régio em Mirandela (1892) e Advogado em Óbidos. Em 1894 transfere-se para Macau, onde, durante três anos, foi professor de Filosofia Elementar no Liceu de Macau, deixando de lecionar por ter sido nomeado, em 1900, Conservador do Registro Predial em Macau e depois Juiz de Comarca. Entre 1894 e 1915, voltou a Portugal algumas vezes, para tratamento de saúde e, numa delas, foi apresentado a Fernando Pessoa que era apreciador de suas poesias.

   

Camilo pulicou poemas em várias revistas e jornais, mas seu único livro "Clepsidra" (1920), foi publicado sem a sua participação (pois se encontrava em Macau) por Ana de Castro Osório, a partir de autógrafos e recortes de jornais. Graças a essa iniciativa, os versos de Pessanha se salvaram do esquecimento. Posteriormente, o filho de Ana de Castro Osório, João de Castro Osório, ampliou a "Clepsidra" original, acrescentrando-lhe poemas que encontrou.  Essas edições foram publicadas em 1945, 1954 e 1969. Além das características simbolistas que sua obra assume, o poeta antecipa alguns princípios modernstas.
Camilo Pessanha buscou em Charles Baudelaire, proto-simbolista francês, o termo "Clepsidra", praticando uma poética sugestão como proposta de Mallarmé, evitando nomear um objeto direta e imediatamente. Por outro lado, segundo o pesquisador da Universidade do Porto Luís Adriano Carlos, "o seu  chamado metaforismo entraria no mesmo rol estético do imaginismo, do inteseccionismo e do surrealismo, buscando relações analógicas entre significante e significado, por intermédio da dinâmica dos dois planos".

   

Junto de sua fragmentação sintática que, segundo a pesquisadora da Universidade do Minho, Maria do Carmo Pinheiro Mendes, "substitui um mundo ordenado segundo leis universalmente reconhecidas por um mundo fundado sobre a ambiguidade, a transitoriedade e a fragmentação", podemos encontrar em sua obra, de acordo com os autores citados, duas características que costumam ser mais relacionadas à poesia moderna que ao simbolismo mais convencional.
Apesar da pequena dimensão da sua obra, Pessanha é considerado um dos poetas mais importantes da língua portuguêsa.
Camilo Pessanha faleceu em Macau, no dia 1 de março de 1926, devido ao uso excessivo de ópio.

INTERROGAÇÃO
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! Nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
** ** **
CANÇÃO DA PARTIDA
Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei-de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro...
        Lançá-lo ao mar.

Quem vai embarcar, que vai degredado,
As penas do amor não queira levar...
Marujos, erguei o cofre pesado,
        Lançai-o ao mar.

E hei-de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.
A sete chaves: tem dentro um carta...
A última, de antes do teu noivado.

A sete chaves  a carta encantada!
E um lenço bordado... Esse hei-de o levar,
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.
** ** **
 EM UM RETRATO
De sob o cômoro quadrangular
Da terra fresca que me há-de inumar,

E depois de já muito ter chovido,
Quando a erva alastrar com o olvido,

Ainda, amigo, o mesmo meu olhar
Há-de ir humilde, atravessando o mar,

Envolver-te de preito enternecido,
Como o de um pobre cão agradecido.




Eliana (Shir) Ellinger
Fontes de Pesquisa:
www.pt.wikipedia.org
www.citador.pt



HERBERTO HELDER



Herberto Helder



Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira nasceu a 23 de Novembro de 1930 no Funchal, Ilha da Madeira, no seio de uma família de origem judaica. Em 1946, com 16 anos, viaja para Lisboa para frequentar o 6º e o 7º ano do curso liceal. Em 1948, matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra e, em 1949, muda para a Faculdade de Letras onde frequenta, durante três anos, o curso de Filologia Romântica, não tendo terminado o curso. Três anos mais tarde regressa a Lisboa, começando por trabalhar durante algum tempo na Caixa Geral de Depósitos e depois como angariador de publicidade, sendo que durante este tempo vive, por razões de ordem vária e pessoal, numa «casa de passe».
Em 1954, data da publicação do seu primeiro poema em Coimbra, regressa à Madeira onde trabalha como meteorologista, seguindo depois para a Ilha de Porto Santo. Quando em 1955 regressa a Lisboa, frequenta o grupo do Café Gelo, de que fazem parte nomes como Mário Cesariny, Luiz Pacheco, António José Forte, João Vieira e Hélder Macedo. Durante esse período trabalha como propagandista de produtos farmacêuticos e redator de publicidade, vivendo com rendimentos baixos. Três anos mais tarde, em 1958, publica o seu primeiro livro, "O Amor em Visita". Durante os anos que se seguiram vive na França, Holanda e Bélgica, países nos quais exerce profissões pobres e marginais, tais como: operário no arrefecimento de lingotes de ferro numa forja, criado numa cervejaria, cortador de legumes numa casa de sopas, empacotador de aparas de papéis e policopista. Em Antuérpia, viveu na clandestinidade e foi guia dos marinheiros no sub mundo da prostituição.

  

Repatriado em 1960, torna-se encarregado das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, percorrendo as vilas e aldeias do Baixo Alentejo, Beira Alta e Ribatejo. Nos dois anos seguintes publica os livros  "A Colher na Boca" , "Poemacto" e "Lugar" . Em 1963 começa a trabalhar para a Emissora Nacional como redator de noticiário internacional, período durante o qual vive em Lisboa. Ainda nesse mesmo ano publica "Os Passos em Volta"  e produz "A máquina de emaranhar paisagens". Em 1964 trabalha nos serviços mecanográficos de uma fábrica de louça, datando desse ano a sua participação na organização da revista Poesia Experimental. Nesse ano reedita ainda "Os Passos em Volta", escreve «Comunicação Académica» e publica "Electronicolírica" . Em 1966 participa na co-organização do segundo número da revista Poesia Experimental  e no ano seguinte publica "Húmus" , "Retrato em Movimento"  e  "Ofício Cantante"

  

Data de 1968 a sua participação na publicação de um livro sobre o Marquês de Sade, o que o leva a ser envolvido num processo judicial no qual foi condenado. Porém, devido às repercussões deste episódio consegue obter suspensão de pena, fato este que não conseguiu evitar que fosse despedido da Rádio e da Televisão portuguesas. Refugia-se na publicidade e, posteriormente, numa editora onde desempenha o cargo de co-gerente e diretor literário. Ainda nesse ano publica os livros " Apresentação do Rosto" , que foi suspenso pela censura, "O Bebedor Nocturno",  "Kodak"  e "Cinco Canções Lacunares".
Em 1970 viaja pela Espanha, França, Bélgica, Holanda e Dinamarca, publicando nesse ano a terceira edição de "Os Passos em Volta"  e escreve "Os Brancos Arquipélagos".

   


Em 1971 desloca-se para Angola onde trabalha como redator numa revista. Enquanto repórter de guerra, é vítima de um grave desastre tendo que ser hospitalizado durante três meses. Data ainda desse ano a publicação de "Vocação Animal"  e a produção de "Antropofagias" . Regressa a Lisboa e parte de novo, desta vez para os E.U.A., em 1973, ano durante o qual publica "Poesia Toda" , obra que contém toda a sua produção poética.  Em 1975 passa alguns meses na França e Inglaterra, regressando posteriormente a Lisboa onde trabalha na rádio e em revistas, meios restritos de sobrevivência econômica. Em 1976, Herberto Helder participa na edição e organização da revista Nova  que, sendo posterior à revolução de 25 de Abril de 1974, reconhecia na Literatura Portuguesa características que a aproximaram às Literaturas latino-americana, africana e espanhola, declinando uma direção literária revolucionária cuja atividade não ultrapassou o plano teórico devido à instabilidade política portuguesa . Nos anos que se seguiram publicou as obras "Cobra"; "O Corpo, O Luxo, A Obra" e "O Photomaton e Vox" .
 A última referência encontrada da instabilidade biográfica de Herberto Helder referia-se ao fato de o poeta ter abandonado todas as suas anteriores atividades e de viver no mais cioso dos anonimatos.


SOBRE POEMA
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto.
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
** ** **
SE HOUVESSE DEGRAUS NA TERRA...
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez~se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou a maçã para outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
** ** **
FONTE
Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo...
Cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.
Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.
Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.
Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta sutil de ferocidade
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.
Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e rensceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.